Eu não conseguia mais dormir direito, pensando no que eu via e ouvia diante daquele cenário aterrorizante que estávamos vivendo. Acordava, abrindo a janela, não via mais os pássaros e sim os aviões, na rua, não escutava mais o bom dia do vizinho, mas o barulho das metralhadoras atirando, as bombas, as casas caindo. A lojinha de doces, onde todo dia eu passava e a dona sempre me dava um bolinho frito e doce típico de Okinawa, o Sata Andagi, havia virado ponto de distribuição de comida. E em outros momentos, havia pessoas fugindo desesperadas por um abrigo, corpos dos mortos espalhados, pessoas sangrando. As gritarias, o medo de ser o próximo a morrer, a situação de ter que abandonar tudo que construiu, como uma casa, mas também como uma família, era horrível.
Morava com a minha família em Okinawa, uma pequena ilha no Japão. A paisagem das praias de lá eram deslumbrantes, gostava de sentir a brisa do mar e só não entrava porque tinham muitas águas – vivas. Eu tinha pouco tempo para brincar, pois tinha que ajudar minha família nas plantações de chá e batata doce. E logo após um dia cheio de coisas para fazer, voltava para casa para jantar. Por mais que faça muito tempo, ainda me recordo do cheirinho da sopa quentinha que minha mãe fazia, era saborosa, única e especial, e também quando, durante a refeição, meu pai me contava as histórias e aventuras que tinha vivido na infância dele. Toda família reunida era tudo para mim, me sentia tão bem, tão acolhido, aconchegante, depois de tanto trabalho e desafios que a gente passava para nos sustentarmos.
E eu só conseguia entender que nós estávamos passando pela guerra quando tinha uns 7 anos. E também, quando muitas coisas que me entristeceram, aconteceram, seguidamente. Meus pais estavam estranhos, eu percebi isso por alguns dias, até que meu pai me contou que foi convocado para ajudar no conflito e, depois de um tempo, a minha mãe me deixou na casa da minha Tia e foi tentar a vida em outro lugar, e não falou quando voltaria. Mesmo nesse contexto de confronto e também sem meus pais por perto, consegui ir com um amigo buscar comida, e aproveitei para levar para o meu avô, que fazia tempo que ele que eu não o visitava. Chegamos na casa do meu avô, afastei a porta, olhei e estava entreaberta, quando vi o morto, caído no chão, cheio de sangue. Minha vida acabou naquele instante, não sabia o que pensar e nem o que fazer. Foi triste, angustiante, senti um grande horror no peito. Ouvimos barulhos de tiros por perto, então pegamos o corpo e fomos levá-lo rapidamente para uma cachoeira próxima. No caminho tivemos que nos fingir de mortos, porque vimos muitos militares inimigos com metralhadoras, atirando. Por sorte conseguimos chegar no local, colocamos o cadáver à beira da água, dispomos algumas pedras por cima e assim me despedi apressadamente, pois tínhamos que ir embora imediatamente dali.
Já de volta na casa da minha Tia, me ajoelhei no chão, e com coração falando pra fora, pedindo socorro e sofrendo, chorei falando, que eu estava perdido, não sabia mais o que fazer, não tinha notícias do meu pai, nem da minha mãe que tinha me abandonado, tinha enterrado o meu avô, o que eu ia fazer sendo que eu tinha apenas 17 anos de idade e ainda teria tanta coisa para aprender e sentir a beleza do que é vida. Depois de alguns meses, e em 1945, com ainda as consequências da guerra que nunca poderia fazer, minha Tia me contou algo que poderia mudar minha trajetória. Ela disse que poderíamos viajar para o Brasil, onde já tinha uma parte da família instalada. Eu aceitei e depois de algumas semanas, embarcamos no navio. Durante a viagem fiquei refletindo e me lembrando, apesar de tudo que aconteceu, os bons momentos que tive em Okinawa com meus parentes. Quando avistei o porto de Santos, pensei, que a partir daquele momento tudo iria mudar, vou ter uma nova vida, vou construir minha família e buscar a minha felicidade.
Sofia Gondim Akamine – Aluna do 9º Ano 2025
